segunda-feira, 12 de maio de 2008

X

por Mariana Rudek

No consultório, dona Ana disse-me coisas que aconteceram em sua vida naquele dia, naquele ano... Antes disso, me achava a pessoa mais desgraçada do mundo, (percebi que, diante daquela senhora, com vida de cem anos, mas pela cronologia do tempo deveria ter, no máximo, trinta anos. Minha vida se resumia em nada. Essa senhora vivera muito mais do que eu imaginei viver. Ainda criança os pais faleceram. Foi criada pelos padrinhos. Sem muitos recursos de educação começou a trabalhar muito jovem como doméstica. A patroa, pessoa muito culta e conhecida por todos, incentivou-a a estudar. Terminou o ensino médio com 20 anos. Logo prestou vestibular e entrou na universidade pública. Casou. Concluiu o curso. Teve três filhos. Nesse período de tempo soube o que foi passar fome, não ter um ombro para chorar. Logo que começou a trabalhar o casal que a criou mudou-se para uma cidade longe. Sentiu solidão. Foi enganada por um salafrão. No inicio deste ano, seu esposo (alcoólatra) tornou-se agressivo com ela e as crianças. Tentaram um tratamento. Ele recusava julgando-se em perfeito estado. Até que uma noite ele chegou em casa armado julgando-a de o ter traído. Um disparo. Um grito “NÃOOO!”. A maior demonstração de amor que um filho poderia fazer. Lucas, o filho mais velho, atirou-se na frente dela. A bala atingiu o peito. Lucas foi levado ao hospital, seu esposo preso e as outras crianças levadas pelo juizado de menores. Lucas teve complicações sérias. Ela nunca mais teve seu filho. Os outros dois filhos fugiram do abrigo para menores traumatizados... apenas foi chamada para reconhecer os corpos no IML. Na prisão seu esposo foi linchado pelos detentos. Apenas a comunicaram, nem o corpo viu.

Voltando para casa, procurei meus filhos, não os encontrei. Andando perdido passei por cima de alguns brinquedos e sem querer pisei no rabo do gato que dormia ao lado da bola azul, vermelha e amarela do Juninho. Depois da pisada o pequeno gatinho saiu resmungando o mau trato. Entrei na cozinha e, meio automático, lancei a pasta sobre a cadeira da ponta, sentei-me em outra ao lado, procurei minha xícara, meu café; foi quando me dei conta que estava sozinho. Desconsolado, procurei o telefone, liguei para a Delivery Panni, encomendei um “X” e um copo de pingado. Antes de desligar recomendei que chegasse aqui ainda quente.

Levantei e fui até a sala, ergui as almofadas do sofá à procura do controle da TV. Ela ainda me faz falta. Eu ainda não havia lhe dado o devido valor, agora reconheço, Ana é especial, tem algo nela que preciso rever!

O noticiário falava sobre a doença que mais ameaça a sociedade hoje, a solidão no meio de tanta gente. Talvez Ana sofra deste mal. Ah, se ela estivesse aqui comigo me ajudaria a diagnosticar, tornei-me dependente dela, da presença dela.

No portão, o barulho do entregador me fez sair dos pensamentos atormentados e ir até ele com o dinheiro e pegar a refeição.

Eu poderia ter aproveitado mais aqueles momentos mágicos enquanto ela estava neste mundo, enquanto estava comigo. Quem sabe se ela pudesse me responder as perguntas do mundo...
Os filhos dela estão com o Pai, acredito que se sente solitária, ela era acostumada com a presença deles. Agora é sozinha em seu apartamento, não há ninguém para ampará-la.

Na manhã seguinte levantei-me e, como todos os dias, fui ao banheiro ainda dormindo, mas acordado, lavei o rosto, escovei os dentes e me arrumei para o trabalho, catei os sapatos embaixo da cama com a ponta do dedão do pé; aí que me lembrei de comprar ração para o cachorro, meu sapato estava com alguns sinais de mordida do Frust (frhãst), aquele dog alemão safado reivindicava comida mascando meus sapatos. Desci até a cozinha alinhando a gravata ao pescoço, lá estava um recado que escrevi anteontem “comprar ração!”, tomei um gole de água, fui até o escritório peguei o “lap top”, a pasta preta com algumas fichas; olhei ao redor, bagunça... Algum dia encontro uma mulher para comandar a casa.

“Ir ao Dr. Jhonson”, dizia o recado que fez apitar a agenda do celular... Olhada rápida no relógio... Corre... Engole um sanduíche de atum que a Maria fez ontem no consultório.
Avenida Joaquim Pinto Braga, número catorze vinte, sala duzentos e dez, segundo andar, oito horas e trinta minutos todas as quartas-feiras, salvo feriados.

– Bom dia, Dr. Jhonson.

Contei-lhe tudo que fiz durante a semana. Ao fim da consulta, me encarando fundo nos olhos, diz-me que estou evoluindo, mas acha coerente não atender mulheres no consultório antes de me recuperar.

– Esse seu desejo por uma companheira faz você viver coisas que nunca aconteceram, porém a evolução é notável, hoje você está normal. Fale para sua vizinha manter o gato dentro de casa por alguns dias. E Ana tem o mesmo problema que você, nunca conseguirá diagnosticar algo que acontece consigo mesmo. Aconselho conversar com ela num barzinho legal, um restaurante, informalmente... Ela serve para você, meu filho!

Realmente, Ana se parece comigo... É psicóloga, tem problema igual ao meu, conhece Dr. Jhonson, solteira, nunca se casou e adora cachorro!

– Anita, nosso filho ainda vive os problemas dos pacientes e insiste em dizer que sou Dr. Jhonson. Drª. Ana aconselhou deixá-lo sob observação na clínica por mais alguns dias, o quadro está evoluindo rápido, a experiência de ele atender uma senhora viúva fê-lo lembrar do acidente naquele onze de maio na Avenida Joaquim Pinto Braga, que lhe tirou esposa e filhos quando estavam saindo para viajar.

As palavras do Dr. à assistente bateram fundo e aí senti a descoberta. Sim este é o X da questão. Dei-me conta da solidão que eu mesmo provoquei. Ana é a minha médica na clínica e me conta histórias dos pacientes dela. Meus pais me visitam as quartas-feiras. Todas as noites sonho com os dias angustiantes após o acidente.

Talvez se pudesse voltar ao tempo teria me contido e os deixado em casa naquele dia, ninguém queria viajar comigo... Porque quis mais algumas horas junto com eles antes de ir para o exterior, não os terei por segundo algum durante toda a minha vida... Até que eu os encontre... Quem sabe amanhã não mate as minhas saudades.

“O famoso psicólogo Alexander Jhonson é encontrado morto em uma clínica de tratamento na zona sul. Ao lado do corpo foi encontrado um bilhete que dizia: ‘ o X esteve presente em toda a minha vida. Depois de tantos anos de solidão. Encontrei o X da questão. Vou de encontro a minha amada e a meus tesouros.”

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Primeira escala

por Keissy Carvelli

Pega a enxada, veste a calça, bate o ponto, soa o sangue, come frio, dorme frio, vive frio, ganha frio.
Bate o martelo, descarrega a carga, constrói o prédio, limpa o chão, passa o rodo, passa o pano, passa o ferro, passa a distração.
Acorda cedo, lotação, sorri amarelo, estômago fraco, arroz, feijão não tem não. É feriado! Sorri por inteiro, come carne, traz cerveja, embebeda a alma, compra pão. Não puxa bandeira, não pinta o rosto, não pede lei, não pede mais; parafuso faz, prego bate, do chão não sai.
Acostuma os pés, padroniza as mãos suadas e cálidas, mão de ferro, o extremo da Revolução! Inglês, inglês, olha a máquina aí. O sangue ninguém olha não que é pra ocultar o preço da insatisfação.
Mais-valia, não vale o quanto pesa, não vale coisa alguma. Deixa escorrer teu suor, pobre, sua que eles querem mais. Despeje tuas gotas pelo rosto que sem tua agonia não há lucro não.
Dia primeiro era briga, luta, confusão. Era pobre trabalhador batendo panela, de cara e bandeira, na rua da contra-revolução. Era o direito gritado, a revolta escancarada, o salário da miséria colocado em questão. Sobe, sobe, já foi abolida a escravidão. Que história é essa de 380 cacos queimados na usina de carvão?
Dia primeiro era voz rouca, firme, um ideal contra a exploração. Era chuva de gás, pimenta nos olhos, polícia com cacetete em mãos. Era primeiro de olhos abertos, de punhos fechados, de execução.
Hoje, primeiro, é o grito de euforia, a faixa na cabeça, a boca ludibriada, o palco das anestesias, o Daniel, Calypso, Xororó e Chitão. Dia primeiro é festa no apê, bundalelê, show pirotécnico para sossegar a boca sem comida da nação.
Não tem pão, mas têm circo, palhaço, Xuxa e desafinação. Tem marmelada, sim senhor, e tem pipoca que é pra manter o trabalhador em seu lugar de exploração.

domingo, 27 de abril de 2008

Em preto e branco

por Keissy Carvelli

Tinha um desses nomes grafados com dois L , uniforme da escola bem passado e um sorriso desses de criança que, sempre após o jantar, come um pedaço de bolo de chocolate. Tinha pai, mãe, madrasta, irmãos e algumas bonecas dispostas na prateleira do quarto de menina de família.
Assistia desenho animado toda manhã segurando, numa mão, o controle da tv e na outra um copo com leite,açúcar e chocolate em pó em proporções perfeitas.Não costumava chorar, era uma dessas crianças alegres, sempre correndo pra lá e pra cá, mas naquele dia seus olhos seriam tomados por lágrimas e suas pequenas mãos de menina que segurava o copo com leite não seriam o suficiente para impedir qualquer desfecho.

Tinha um desses nomes comuns que se pode ouvir em toda esquina, uniforme não tinha, e estampava no rosto um sorriso desses de criança que, após um dia sem comer, deita em qualquer lugar e sonha com qualquer coisa.
Subia e descia aquelas ladeiras intermináveis se olhadas de baixo, e não se cansava, ao menos fazia parecer que não. A camiseta rasgada era a única de muitos dias, o short já não tinha cor, e os pés, sempre descalços, pisavam sobre todas as futuras lembranças de uma infância inexistente. Não costumava chorar, era uma dessas crianças indiferentes, que já levam na expressão as marcas de uma triste alegria, mas naquele dia seus olhos descansariam de toda aquela bagunça, e suas pequenas mãos de menino que nada segura não seriam capaz de mudar o destino.

Ela gostava do Natal, acreditava de olhos brilhando em Papai Noel, e, quando crescesse, seria médica.Era o que dizia a quem quisesse saber. Seria médica, de branco, de luvas e coração. Seria rica também, e iria à Disneylândia.
Ele nunca teve um Natal, e acreditava que essa coisa de Papai Noel era programa de televisão, e não queria crescer. Nunca ouviu falar em Disneylândia, e queria também ser rico, muito rico ao ponto de ter, invariavelmente, café da manhã, almoço e jantar. Seria tão rico, tão rico que comeria bolo de chocolate todos os sábados e tomaria leite nas manhãs de domingo.
Ela usava perfume de criança, sapato cor-de-rosa, laços e um brinco que ganhara da avó logo quando nasceu. Pintava os lábios com o batom da mãe, e dançava sempre nas festinhas das amigas.
Ele cheirava a rua, nos pés um pouco de terra, e nos braços e pernas algumas cicatrizes que ganhara do pai logo depois de nascer. O corpo era pintado de sujeira, de fome, miséria e falta de atenção. Ele nunca dançara, e nada dizia àqueles que nunca quiseram ouvir.

Ela, doce menina, tomou o lugar do desenho animado por toda uma manhã com a sua cruel história transmitida em cores, ao vivo, e alta definição. Não seria médica, nem rica como sonhara. Seria o tema dos jornais, a comoção nacional, a histeria, a justiça em foco, a investigação, o choque, a homenagem, a passeata; seria o assunto de boca em boca, de página em página, de tela em tela; seria o nome grafado com dois L, grifado e gritado por dias e dias.
Ele, pobre menino, tomou um tiro de bala propositalmente perdida em plena ladeira e caiu com o rosto para o chão. Já não se sabia o que era sangue e o que era terra.
Seu nome, comum, não foi pauta, não foi prosa, poesia, porra nenhuma. Não seria nada do que não sonhara, nem rico o bastante para comer. Seria um número a mais, um caso a mais, um problema social. Seria nada, absolutamente nada.

Ela seria a prova de que o mundo não anda nada bem, a convicção de que a justiça não anda nada bem, que a família não anda nada bem, que a puta-que-o-pariu não anda nada bem. Ela seria o show pirotécnico da virada do ano transmitida, comentada e emocionada pelo que há de melhor das famílias e seus valores.
Ele seria apenas a confirmação de que o mundo é assim mesmo, uma pena; seria a convicção de que o mundo é assim mesmo, uma pena; seria a constatação de que país subdesenvolvido no mundo é assim mesmo, uma pena. Ele seria aquela terra misturada a sangue e miséria jogada e abatida ao chão, bem ali, onde ninguém vê.