quinta-feira, 1 de maio de 2008

Primeira escala

por Keissy Carvelli

Pega a enxada, veste a calça, bate o ponto, soa o sangue, come frio, dorme frio, vive frio, ganha frio.
Bate o martelo, descarrega a carga, constrói o prédio, limpa o chão, passa o rodo, passa o pano, passa o ferro, passa a distração.
Acorda cedo, lotação, sorri amarelo, estômago fraco, arroz, feijão não tem não. É feriado! Sorri por inteiro, come carne, traz cerveja, embebeda a alma, compra pão. Não puxa bandeira, não pinta o rosto, não pede lei, não pede mais; parafuso faz, prego bate, do chão não sai.
Acostuma os pés, padroniza as mãos suadas e cálidas, mão de ferro, o extremo da Revolução! Inglês, inglês, olha a máquina aí. O sangue ninguém olha não que é pra ocultar o preço da insatisfação.
Mais-valia, não vale o quanto pesa, não vale coisa alguma. Deixa escorrer teu suor, pobre, sua que eles querem mais. Despeje tuas gotas pelo rosto que sem tua agonia não há lucro não.
Dia primeiro era briga, luta, confusão. Era pobre trabalhador batendo panela, de cara e bandeira, na rua da contra-revolução. Era o direito gritado, a revolta escancarada, o salário da miséria colocado em questão. Sobe, sobe, já foi abolida a escravidão. Que história é essa de 380 cacos queimados na usina de carvão?
Dia primeiro era voz rouca, firme, um ideal contra a exploração. Era chuva de gás, pimenta nos olhos, polícia com cacetete em mãos. Era primeiro de olhos abertos, de punhos fechados, de execução.
Hoje, primeiro, é o grito de euforia, a faixa na cabeça, a boca ludibriada, o palco das anestesias, o Daniel, Calypso, Xororó e Chitão. Dia primeiro é festa no apê, bundalelê, show pirotécnico para sossegar a boca sem comida da nação.
Não tem pão, mas têm circo, palhaço, Xuxa e desafinação. Tem marmelada, sim senhor, e tem pipoca que é pra manter o trabalhador em seu lugar de exploração.

Um comentário:

Anônimo disse...

"diversão na revolta, ação na vida
será que eu fui amaldiçoado?
me faço essa pergunta antes de apagar
desmaio no sofá, amanhã não vai mudar!"