por Mariana Rudek
No consultório, dona Ana disse-me coisas que aconteceram em sua vida naquele dia, naquele ano... Antes disso, me achava a pessoa mais desgraçada do mundo, (percebi que, diante daquela senhora, com vida de cem anos, mas pela cronologia do tempo deveria ter, no máximo, trinta anos. Minha vida se resumia em nada. Essa senhora vivera muito mais do que eu imaginei viver. Ainda criança os pais faleceram. Foi criada pelos padrinhos. Sem muitos recursos de educação começou a trabalhar muito jovem como doméstica. A patroa, pessoa muito culta e conhecida por todos, incentivou-a a estudar. Terminou o ensino médio com 20 anos. Logo prestou vestibular e entrou na universidade pública. Casou. Concluiu o curso. Teve três filhos. Nesse período de tempo soube o que foi passar fome, não ter um ombro para chorar. Logo que começou a trabalhar o casal que a criou mudou-se para uma cidade longe. Sentiu solidão. Foi enganada por um salafrão. No inicio deste ano, seu esposo (alcoólatra) tornou-se agressivo com ela e as crianças. Tentaram um tratamento. Ele recusava julgando-se em perfeito estado. Até que uma noite ele chegou em casa armado julgando-a de o ter traído. Um disparo. Um grito “NÃOOO!”. A maior demonstração de amor que um filho poderia fazer. Lucas, o filho mais velho, atirou-se na frente dela. A bala atingiu o peito. Lucas foi levado ao hospital, seu esposo preso e as outras crianças levadas pelo juizado de menores. Lucas teve complicações sérias. Ela nunca mais teve seu filho. Os outros dois filhos fugiram do abrigo para menores traumatizados... apenas foi chamada para reconhecer os corpos no IML. Na prisão seu esposo foi linchado pelos detentos. Apenas a comunicaram, nem o corpo viu.
No consultório, dona Ana disse-me coisas que aconteceram em sua vida naquele dia, naquele ano... Antes disso, me achava a pessoa mais desgraçada do mundo, (percebi que, diante daquela senhora, com vida de cem anos, mas pela cronologia do tempo deveria ter, no máximo, trinta anos. Minha vida se resumia em nada. Essa senhora vivera muito mais do que eu imaginei viver. Ainda criança os pais faleceram. Foi criada pelos padrinhos. Sem muitos recursos de educação começou a trabalhar muito jovem como doméstica. A patroa, pessoa muito culta e conhecida por todos, incentivou-a a estudar. Terminou o ensino médio com 20 anos. Logo prestou vestibular e entrou na universidade pública. Casou. Concluiu o curso. Teve três filhos. Nesse período de tempo soube o que foi passar fome, não ter um ombro para chorar. Logo que começou a trabalhar o casal que a criou mudou-se para uma cidade longe. Sentiu solidão. Foi enganada por um salafrão. No inicio deste ano, seu esposo (alcoólatra) tornou-se agressivo com ela e as crianças. Tentaram um tratamento. Ele recusava julgando-se em perfeito estado. Até que uma noite ele chegou em casa armado julgando-a de o ter traído. Um disparo. Um grito “NÃOOO!”. A maior demonstração de amor que um filho poderia fazer. Lucas, o filho mais velho, atirou-se na frente dela. A bala atingiu o peito. Lucas foi levado ao hospital, seu esposo preso e as outras crianças levadas pelo juizado de menores. Lucas teve complicações sérias. Ela nunca mais teve seu filho. Os outros dois filhos fugiram do abrigo para menores traumatizados... apenas foi chamada para reconhecer os corpos no IML. Na prisão seu esposo foi linchado pelos detentos. Apenas a comunicaram, nem o corpo viu.
Voltando para casa, procurei meus filhos, não os encontrei. Andando perdido passei por cima de alguns brinquedos e sem querer pisei no rabo do gato que dormia ao lado da bola azul, vermelha e amarela do Juninho. Depois da pisada o pequeno gatinho saiu resmungando o mau trato. Entrei na cozinha e, meio automático, lancei a pasta sobre a cadeira da ponta, sentei-me em outra ao lado, procurei minha xícara, meu café; foi quando me dei conta que estava sozinho. Desconsolado, procurei o telefone, liguei para a Delivery Panni, encomendei um “X” e um copo de pingado. Antes de desligar recomendei que chegasse aqui ainda quente.
Levantei e fui até a sala, ergui as almofadas do sofá à procura do controle da TV. Ela ainda me faz falta. Eu ainda não havia lhe dado o devido valor, agora reconheço, Ana é especial, tem algo nela que preciso rever!
O noticiário falava sobre a doença que mais ameaça a sociedade hoje, a solidão no meio de tanta gente. Talvez Ana sofra deste mal. Ah, se ela estivesse aqui comigo me ajudaria a diagnosticar, tornei-me dependente dela, da presença dela.
No portão, o barulho do entregador me fez sair dos pensamentos atormentados e ir até ele com o dinheiro e pegar a refeição.
Eu poderia ter aproveitado mais aqueles momentos mágicos enquanto ela estava neste mundo, enquanto estava comigo. Quem sabe se ela pudesse me responder as perguntas do mundo...
Os filhos dela estão com o Pai, acredito que se sente solitária, ela era acostumada com a presença deles. Agora é sozinha em seu apartamento, não há ninguém para ampará-la.
Na manhã seguinte levantei-me e, como todos os dias, fui ao banheiro ainda dormindo, mas acordado, lavei o rosto, escovei os dentes e me arrumei para o trabalho, catei os sapatos embaixo da cama com a ponta do dedão do pé; aí que me lembrei de comprar ração para o cachorro, meu sapato estava com alguns sinais de mordida do Frust (frhãst), aquele dog alemão safado reivindicava comida mascando meus sapatos. Desci até a cozinha alinhando a gravata ao pescoço, lá estava um recado que escrevi anteontem “comprar ração!”, tomei um gole de água, fui até o escritório peguei o “lap top”, a pasta preta com algumas fichas; olhei ao redor, bagunça... Algum dia encontro uma mulher para comandar a casa.
“Ir ao Dr. Jhonson”, dizia o recado que fez apitar a agenda do celular... Olhada rápida no relógio... Corre... Engole um sanduíche de atum que a Maria fez ontem no consultório.
Avenida Joaquim Pinto Braga, número catorze vinte, sala duzentos e dez, segundo andar, oito horas e trinta minutos todas as quartas-feiras, salvo feriados.
– Bom dia, Dr. Jhonson.
Contei-lhe tudo que fiz durante a semana. Ao fim da consulta, me encarando fundo nos olhos, diz-me que estou evoluindo, mas acha coerente não atender mulheres no consultório antes de me recuperar.
– Esse seu desejo por uma companheira faz você viver coisas que nunca aconteceram, porém a evolução é notável, hoje você está normal. Fale para sua vizinha manter o gato dentro de casa por alguns dias. E Ana tem o mesmo problema que você, nunca conseguirá diagnosticar algo que acontece consigo mesmo. Aconselho conversar com ela num barzinho legal, um restaurante, informalmente... Ela serve para você, meu filho!
Realmente, Ana se parece comigo... É psicóloga, tem problema igual ao meu, conhece Dr. Jhonson, solteira, nunca se casou e adora cachorro!
– Anita, nosso filho ainda vive os problemas dos pacientes e insiste em dizer que sou Dr. Jhonson. Drª. Ana aconselhou deixá-lo sob observação na clínica por mais alguns dias, o quadro está evoluindo rápido, a experiência de ele atender uma senhora viúva fê-lo lembrar do acidente naquele onze de maio na Avenida Joaquim Pinto Braga, que lhe tirou esposa e filhos quando estavam saindo para viajar.
As palavras do Dr. à assistente bateram fundo e aí senti a descoberta. Sim este é o X da questão. Dei-me conta da solidão que eu mesmo provoquei. Ana é a minha médica na clínica e me conta histórias dos pacientes dela. Meus pais me visitam as quartas-feiras. Todas as noites sonho com os dias angustiantes após o acidente.
Talvez se pudesse voltar ao tempo teria me contido e os deixado em casa naquele dia, ninguém queria viajar comigo... Porque quis mais algumas horas junto com eles antes de ir para o exterior, não os terei por segundo algum durante toda a minha vida... Até que eu os encontre... Quem sabe amanhã não mate as minhas saudades.
“O famoso psicólogo Alexander Jhonson é encontrado morto em uma clínica de tratamento na zona sul. Ao lado do corpo foi encontrado um bilhete que dizia: ‘ o X esteve presente em toda a minha vida. Depois de tantos anos de solidão. Encontrei o X da questão. Vou de encontro a minha amada e a meus tesouros.”
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