domingo, 27 de abril de 2008

Em preto e branco

por Keissy Carvelli

Tinha um desses nomes grafados com dois L , uniforme da escola bem passado e um sorriso desses de criança que, sempre após o jantar, come um pedaço de bolo de chocolate. Tinha pai, mãe, madrasta, irmãos e algumas bonecas dispostas na prateleira do quarto de menina de família.
Assistia desenho animado toda manhã segurando, numa mão, o controle da tv e na outra um copo com leite,açúcar e chocolate em pó em proporções perfeitas.Não costumava chorar, era uma dessas crianças alegres, sempre correndo pra lá e pra cá, mas naquele dia seus olhos seriam tomados por lágrimas e suas pequenas mãos de menina que segurava o copo com leite não seriam o suficiente para impedir qualquer desfecho.

Tinha um desses nomes comuns que se pode ouvir em toda esquina, uniforme não tinha, e estampava no rosto um sorriso desses de criança que, após um dia sem comer, deita em qualquer lugar e sonha com qualquer coisa.
Subia e descia aquelas ladeiras intermináveis se olhadas de baixo, e não se cansava, ao menos fazia parecer que não. A camiseta rasgada era a única de muitos dias, o short já não tinha cor, e os pés, sempre descalços, pisavam sobre todas as futuras lembranças de uma infância inexistente. Não costumava chorar, era uma dessas crianças indiferentes, que já levam na expressão as marcas de uma triste alegria, mas naquele dia seus olhos descansariam de toda aquela bagunça, e suas pequenas mãos de menino que nada segura não seriam capaz de mudar o destino.

Ela gostava do Natal, acreditava de olhos brilhando em Papai Noel, e, quando crescesse, seria médica.Era o que dizia a quem quisesse saber. Seria médica, de branco, de luvas e coração. Seria rica também, e iria à Disneylândia.
Ele nunca teve um Natal, e acreditava que essa coisa de Papai Noel era programa de televisão, e não queria crescer. Nunca ouviu falar em Disneylândia, e queria também ser rico, muito rico ao ponto de ter, invariavelmente, café da manhã, almoço e jantar. Seria tão rico, tão rico que comeria bolo de chocolate todos os sábados e tomaria leite nas manhãs de domingo.
Ela usava perfume de criança, sapato cor-de-rosa, laços e um brinco que ganhara da avó logo quando nasceu. Pintava os lábios com o batom da mãe, e dançava sempre nas festinhas das amigas.
Ele cheirava a rua, nos pés um pouco de terra, e nos braços e pernas algumas cicatrizes que ganhara do pai logo depois de nascer. O corpo era pintado de sujeira, de fome, miséria e falta de atenção. Ele nunca dançara, e nada dizia àqueles que nunca quiseram ouvir.

Ela, doce menina, tomou o lugar do desenho animado por toda uma manhã com a sua cruel história transmitida em cores, ao vivo, e alta definição. Não seria médica, nem rica como sonhara. Seria o tema dos jornais, a comoção nacional, a histeria, a justiça em foco, a investigação, o choque, a homenagem, a passeata; seria o assunto de boca em boca, de página em página, de tela em tela; seria o nome grafado com dois L, grifado e gritado por dias e dias.
Ele, pobre menino, tomou um tiro de bala propositalmente perdida em plena ladeira e caiu com o rosto para o chão. Já não se sabia o que era sangue e o que era terra.
Seu nome, comum, não foi pauta, não foi prosa, poesia, porra nenhuma. Não seria nada do que não sonhara, nem rico o bastante para comer. Seria um número a mais, um caso a mais, um problema social. Seria nada, absolutamente nada.

Ela seria a prova de que o mundo não anda nada bem, a convicção de que a justiça não anda nada bem, que a família não anda nada bem, que a puta-que-o-pariu não anda nada bem. Ela seria o show pirotécnico da virada do ano transmitida, comentada e emocionada pelo que há de melhor das famílias e seus valores.
Ele seria apenas a confirmação de que o mundo é assim mesmo, uma pena; seria a convicção de que o mundo é assim mesmo, uma pena; seria a constatação de que país subdesenvolvido no mundo é assim mesmo, uma pena. Ele seria aquela terra misturada a sangue e miséria jogada e abatida ao chão, bem ali, onde ninguém vê.